Um grande romance

12, maio, 2021 | Artigos | 0 Comentários

Por Otto Maria Carpeaux

Este ensaio faz parte do livro Retratos & Leituras 

Certos livros sofrem a má sorte de ficarem desconhecidos, justamente porque todo o mundo os conhece. Todo o mundo aprende a língua italiana nos Promessi sposi, de Manzoni, e quatro gerações de colegiais italianos aborreceram-se desse romance, transformado em livro escolar: ficou-lhes a lembrança dum “livro chato”. Afinal, todos os romances históricos, de Scott até Sienkiewicz, transformaram-se em leitura infantil: o leitor adulto não suporta a glorificação ingênua do passado. Os Promessi sposi devem a mesma sorte a um equívoco. Pois é o único romance histórico que apresenta o passado em cores sombrias. É um romance político. E uma análise exata descobre-lhe mais qualidades inesperadas, revela-o enfim como epopéia, que nasceu duma tragédia individual e anuncia uma esperança coletiva.

Disse-me, certa vez, um amigo brasileiro que nunca quis ler aquele livro “porque os salesianos costumam dá-lo de presente aos alunos no fim do ano letivo”. A esse amigo dedico o seguinte resumo esquelético do enredo dos Noivos. Os noivos são Renzo e Lucia, pobres fiandeiros de seda numa aldeia lombarda do século xvii, época do domínio espanhol sobre a Itália e do despotismo dos senhores feudais. Renzo e Lucia pretendem casar. Mas o vigário Don Abbondio não lhes dará a bênção nupcial; ele tem medo enorme do latifundiário Don Rodrigo, que gostaria de eliminar o pobre Renzo e roubar a moça. O padre, entrincheirando-se atrás de frases untuosas e subterfúgios involuntariamente cômicos, sabe satisfazer, ao mesmo tempo, aos deveres de pastor de almas alheias e às preocupações da própria alma medrosa. Os noivos, desesperados, apelam para o capuchinho frei Cristoforo, que tem conceito mais ativo do cristianismo: abriga a moça provisoriamente num convento em Monza, e põe Renzo a salvo, mandando-o para Milão. Mas os poderes deste mundo são mais fortes que o cristianismo do frei Cristoforo; antes justificam o cristianismo de Don Abbondio. Naquele convento em Monza vive uma religiosa, dama da aristocracia que seu pai forçou a tomar o hábito para separá-la dum amante indigno, e que continua no convento uma vida escandalosa. É ela que entrega Lucia a um amigo de Don Rodrigo: a um homem cruel, violento, sombrio, que vive num castelo solitário e inspira tanto pavor à gente que até não têm a coragem de pronunciar-lhe o nome; chamam-lhe Innominato. Em Milão, Renzo, cheio de raiva contra os opressores, toma parte numa revolta do povo faminto nas ruas, assaltando as padarias; depois rebenta a peste. Os que não fugiram da miséria para o território da República de Veneza, adoecem e morrem a milhares, levados pelos terríveis monatti, enfermeiros e coveiros ao mesmo tempo. Entre as vítimas é Don Rodrigo, que morre na carreta dos monatti; pois a Morte é democrata. No hospital, onde frei Cristoforo serve como enfermeiro, Renzo encontra Lucia: o Innominato, confundido numa conversa com o santo cardeal Federico Borromeo, converteu-se de maneira milagrosa e deixou a moça fugir. Enfim, os promessi sposi estão reunidos. Contudo, Don Abbondio não lhes dará a bênção nupcial antes de ficar certo da morte do temido Don Rodrigo. Mas será fácil perdoar-lhe a covardia, no momento em que temos de esquecer tantos sofrimentos e perdoar tantos crimes, nós que precisamos, todos, do perdão final, anunciado nos Promesi sposi com as palavras que ressoam como eco e ficam na memória: “Dite loro che perdonino sempre, sempre! tutto! tutto![1].

Livro chato! Imitação pálida de Walter Scott; cheia de otimismo cor de rosa, leitura para meninos e moças. Alegam que é descrição velada do domínio austríaco sobre a Lombardia, e que o romance fortaleceu as esperanças patrióticas dos italianos. Mas era realmente assim? O catolicismo liberal de Manzoni gerou inúmeros “manzonianos”, gente fraca, paralisada pelo conflito irresolúvel entre o patriotismo italiano e a lealdade à Igreja romana. Contra esses manzonianos protestou Carducci, representante dos tendências “romanas”, “viris”, da nova Itália, e, com isso, precursor inconsciente do fascismo. Ridicularizou as esperanças contraditórias e estéreis do catolicismo liberal: o imperador da Áustria deu porventura a liberdade aos italianos, comovido por um sermão do cardeal Borromeo? A caridade do frei Cristoforo venceu porventura a violência dos senhores feudais? Manzoni acreditava na Providência divina, naquela mesma Providência que tolerou cinco séculos de opressão da Lombardia, e que no romance de Manzoni intervém por meio de conversões inacreditáveis. O livro, concluíram os adversários, não tem nada que ver com a Pátria, Liberdade, História. É produto duma evasão da realidade, é um idílio, um conto de fadas.

Mas, responderam os professores, os Promessi sposi não são um conto de fadas, e sim um livro de História. Manzoni era historiador consciencioso. As suas descrições da tirania feudal, revoltas populares, da peste, são rigorosamente exatas, e a miséria popular — o motor do enredo do romance — é, coisa rara então, estudada até nos seus motivos econômicos (“cause per cui i lavoratori della seta nella prima metà dei Seicento emigrarono dalla Lombardia”). Algumas das personagens principais são históricas: frei Cristoforo convertido após uma vida de violências de grande aristocrata, o cardeal Borromeo, a religiosa de Monza, todos eles Manzoni os tomou da crônica contemporânea de Ripamonte; na mesma fonte encontrou o próprio Innominato, Bernardino Visconti, convertido pelo cardeal Borromeo. O romance poderia suportar o subtítulo da última peça histórica de Shakespeare: All is True. Mas para que serve isso? Lembro-me duma frase de Carlyle: “O historiador diz: só o fato tem importância; o rei João passou por aqui. Mas o cientista responde: fato que não me importa absolutamente porque nunca mais passará por aqui”. Nós, filhos duma era de técnica física, concordamos. Que nos importa a História? Que nos importa essa história?

O primeiro que concordaria com isso seria o próprio Manzoni. No Ensayo sobre la novela histórica, Amado Alonso descreveu bem os escrúpulos terríveis de Manzoni com respeito à relação entre a história e o romance, de modo que basta aqui a referência. A ficção lhe parecia deformação ilegítima da verdade histórica; nunca mais escreveu outro romance, quase não escreveu mais nada. Passou 50 anos em silêncio desesperado, afastado da vida, em solidão absoluta.

Eis o que significa tomar a sério a literatura. Os contemporâneos cheios de admiração submissa, interpretaram aquele silêncio como serenidade goetheana dum medalhão oficial da Itália liberta. Talvez soubesse da verdade só o velho Verdi, que dedicou à morte de Manzoni o seu Requiem, cheio de chamas infernais e de preces insistentes pelo perdão final. Manzoni não era representante duma religiosidade tranqüila, oficial. Convertido, pertenceu à estirpe dos twice-born, dos quais William James fala: à estirpe dos Luther, Pascal, Kierkegaard, nunca encontrando a paz da alma que está acima da razão. São homens que vivem e morrem “no paradoxo”, na região de fronteiras perigosas.

Manzoni não foi convertido por padres insuspeitos. Os seus guias para a Igreja eram Degola, jansenista italiano, e Baillet, jansenista francês. Em Paris, iluminou-se-lhe a consciência quando, na ocasião duma revolta de rua, se refugiou numa igreja. Não será possível, porém, interpretar o fato psicológico como fenômeno de evasão. A interpretação histórica lembrará o parentesco do jansenismo predestinacionista com o calvinismo, criador da mentalidade burguesa, e o papel do próprio jansenismo na formação da mentalidade econômica na França moderna. A conversão religiosa de Manzoni está intimamente ligada a uma conversão social. O jovem Manzoni era aristocrata típico do século xvii ao fim do qual nasceu; sua casa na Piazza Belgiojoso, em Milão, é um daqueles nobres palácios rococós — linhas simples, os guarda-ventos das janelas sempre fechados — dos grandes senhores pré-revolucionários da Lombardia, descendentes de Don Rodrigo e do Innominato, domesticados pelo salão francês e pela filosofia do século das Luzes. Não se importavam com a “superstição” do povo, base dos seus privilégios entre os quais se contava a indiferença religiosa. Pela conversão, Manzoni saiu da sua classe. É preciso interpretar a história historicamente: na situação de então, a conversão de Manzoni significou adesão ao povo.

Manzoni não era católico liberal; era católico democrático. Aqueles padres jansenistas estavam em relações íntimas com o abade Grégoire, que fora um dos jacobinos mais resolutos e tinha votado pela morte do rei Luís xvi. Manzoni, procurando representantes católicos dos seus ideais políticos, encontrou-se com aqueles grandes revolucionários medievais, os Papas dos séculos xii e xiii, que se aliaram às comunas democráticas da Lombardia contra os imperadores alemães — tradição lombarda que, durante cinco séculos de opressão, até Manzoni, não tinha encontrado voz representativa na literatura italiana. Manzoni, procurando razões teóricas do seu paradoxal credo político, aderiu às teorias do historiador francês Thierry, que introduziu as massas populares na historiografia e interpretou a história da França como revolução permanente dos gauleses oprimidos contra os invasores aristocráticos, os francos. Crente do dogma de predestinação jansenista, Manzoni já estava preparado para essa teoria, por assim dizer “racista”, da história. Mas ultrapassou o liberalismo burguês do historiador; interpretando toda a história da Itália como luta entre opressores, estrangeiros ou indígenas, e vencidos; transformou a “luta de raças” em “luta de classes”. Falando das “cause per cui i lavoratori della seta nella prima metà del Seicento emigrarono dalla Lombardia”,[2] baseou o motivo principal do seu romance no fundamento da história econômica. Estava perto do fundador do socialismo cristão, Lamennais, que acabou como herético excomungado. Estava na fronteira.

Manzoni estava consciente do perigo. Cinqüenta anos de silêncio, de permanente exame de consciência não o curvaram nem o tranqüilizaram. Confirmaram-lhe, apenas, jansenisticamente, a sua predestinação.

Essa situação psicológica de Manzoni, fruto duma psicologia determinista como a dos moralistas franceses, jansenistas do século xvii, reflete-se na psicologia do seu romance. As suas personagens são, todas, “predestinadas”: Don Rodrigo, pela sua situação de senhor feudal; o cardeal Borromeo, para a santidade, e a religiosa de Monza, para o pecado; frei Cristoforo, pelo seu passado violento que aparece transformado em inconformismo social naquela ameaça a Don Rodrigo: “Giorno verrà…[3]; até Don Abbondio é predestinado para a covardia (“il coraggio, uno non se lo può dare[4]). Conforme as leis da predestinação moral, as personagens aparecem a pares: o cardeal Borromeo e Don Abbondio, frei Cristoforo e Don Rodrigo. Só uma personagem está solitária: o Innominato, convertido mas, depois, sem força de agir, assim como o próprio Manzoni, tem toda a humildade de Manzoni e todo o seu inconformismo invencível. A conversão do Innominato é a conversão do próprio Manzoni, apiedando-se da miséria do povo. O mutismo dessa conversão — o Innominato não responde palavra alguma ao cardeal — e a solidão do convertido no pavoroso castelo solitário é símbolo profético do silêncio meio-secular de Manzoni na solidão pavorosa do castelo da sua alma. Todo o romance é vivificado por esse elemento autobiográfico; da revolta popular (lembram-se da rua em Paris?), através da conversão, até a solidão sem fim, com a esperança do perdão. Contra o fundo negro da alma do Innominato, destacam-se a auréola do santo cardeal Borromeo e as luzes infernais na alma da religiosa de Monza. A sua incapacidade de agir e até de falar corresponde tragicamente à covardia de Don Abbondio, que prefere a aliança com o diabo à predicação da palavra evangélica, digno do limbo dantesco das “anime triste di coloro che visser senza infamia e senza lodo[5]. Um passo mais adiante, e estamos no pleno inferno — “parole di dolore, accenti d’ira[6] — no Inferno da História em que sofre a personagem principal dos Promessi sposi: o povo.

Certos críticos acham insignificantes os protagonistas dessa massa popular: Renzo e Lucia. Mas Renzo e Lucia são personagens tão “insignificantes” como parecia “insignificante” o povo aos historiadores da velha escola, imbuídos de ideais heróicos, “romanos”, que Manzoni, o jansenista, detestava. Lucia é inocente como o povo que sofre; e Renzo tem indomável senso de direito que inspirará a Revolução.

O povo da Lombardia é a personagem principal dos Promessi sposi: história duma luta de classes entre humildes e poderosos. Por isso, os Promessi sposi, diferentes de todos os outros romances históricos, não glorificam o passado. Estranho idílio em que o feudalismo governa e a peste raiava!; e, podemos acrescentar, em que a Providência não reage contra os males do século.

Na verdade os milagres da Providência, nos Promessi spossi, não adiantam nada. A Providência, no romance de Manzoni, não tem força real; reage apenas como luz artística que transfigura a realidade, representada com todas as suas sombras: como luz, limitando a sombra. É ela que cria o equilíbrio entre a causalidade determinada do passado e as esperanças livres do futuro; confere ao romance a harmonia, própria da epopéia, e, no entanto suscita, após cinco séculos de silêncio, uma voz que chama para ação: “Giorno verrà…”.

Mas o que se harmonizou tão bem na obra de arte, não se realizou na vida. O Giorno veio, mas não aquele que Manzoni sonhara. A liberdade da Itália foi feita, mas não pelo povo, e sim por uma burguesia egoísta, a mesma que transformou, mais tarde, o Estado unitário em Estado fascista; e então, celebrou-se a aliança de Don Rodrigo com o cardeal Abbondio.

Manzoni era um vencido. Não conseguiu superar as contradições íntimas daquele paradoxo generoso que era o seu catolicismo democrático; e isto lhe paralisou a capacidade de agir, tornando-o, durante 50 anos, prisioneiro da angústia confusa da sua velhice. Mas sem aquelas contradições, Manzoni teria apenas conseguido um dos muitos romances galhardamente patrióticos da época — de D’Azeglio, Guerrazzi, Grossi — ótima literatura de propaganda, hoje ilegível e esquecida. Os Promessi sposi, porém, cheios de tensões íntimas entre derrotas e esperanças, são um verdadeiro romance político. Daquelas contradições Manzoni criou a autêntica obra de arte, que lhe substituiu a ação, pagando com o desespero silencioso no castelo sinistro da sua alma. O verdadeiro Manzoni ficou desconhecido, um Innominato, mudo, incapaz de dizer a última palavra da sua arte. Disse-a, entre chamas infernais e preces insistentes, a arte que está além da fronteira das palavras, a música de Verdi.

Não lhe foi dado atravessar aquela fronteira. Os twice-born fincam sempre lá, na região do perigo. E são tão humildes, esses inconformistas, que chegam até pedir perdão por isso. Às vezes, Manzoni lembra-me os versos de Apollinaire:

 

Pitié pour nous qui combattons toujours aux frontières

De l’illimité et de l’avenir

Pitié pour nos erreurs pitié pour nos péchés.[7]

E responde-se a Manzoni com as suas próprias palavras: “Dite loro che perdonino sempre, sempre! tutto! tutto!”.

[1] “Diga-lhes que perdoem sempre, sempre! tudo! tudo!” [N.E.]

[2] “Causas pelas quais os trabalhadores da seda na primeira metade do século XVII emigraram da Lombardia”. [N.E.]

[3] “Dia virá”. [N.E.]

[4] “A coragem, não se pode dá-la”. [N.E.]

[5] “Alma triste daqueles que vivem sem infâmia e sem louvor”. [N.E.]

[6] “Palavras de dor, acentos de ira”. [N.E.]

[7] “Piedade de nós que sempre combatemos nas fronteiras do ilimitado e do porvir, piedade por nossos erros, piedade por nossos pecados”. [N.E.]

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Detalhes do autor

Otto Maria Carpeaux

Nasceu em Viena, em 1900. Estudou Filosofia, Matemática, Sociologia, Literatura Comparada e Ciências Políticas. Doutorou-se em Química. Foi um intelectual de relevo no meio cultural vienense na década de 30. Após a anexação da Áustria foi perseguido pelos nazistas. Imigrou para o Brasil em 1939.

Carpeaux foi colaborador de diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro. Entre seus livros destaca-se a obra-prima História da Literatura Ocidental. Faleceu em 1978, na capital fluminense.

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