Suburbanadas

3, mar, 2021 | Artigos | 1 Comentário

Por Alexandre Soares Silva

Num livro que li muito tempo atrás, suponho que de Aldous Huxley, existe a história de um parisiense real que viveu durante a época da Revolução Francesa. Ele tinha um diário no qual escrevia com freqüência, e em todas as centenas de páginas do diário ele nunca faz nenhuma menção à Revolução Francesa. Fala dos insetos do jardim dele, ou das estrelas (não lembro se era entomologista ou astrônomo), ou de ir ao açougue comprar carne. Esqueci o nome dele e em que livro ele aparece – mas é o meu herói.
 
Lembro também que perguntaram para Paulo Francis se ele estava sabendo do último escândalo – e ele suspirou pesadamente, o microfone fazendo aquele barulho que faz quando soprado diretamente, fruummmm, e resmungou: “não, qual foi a suburbanada agora?”. É sempre uma suburbanada – algo envolvendo uma pasta rosa, uma pochete, um anão, uma peruca.
 
A Revolução Francesa foi uma suburbanada, sim – a Grande Suburbanada da História, por definição. Hitler? Uma suburbanada. Ditadura militar, morte de Tancredo, tudo uma suburbanada. Mesmo esse furacão do qual vocês todos estão falando agora é uma suburbanada do vento.
 
Meu sonho, meu sonho mesmo, era encontrar alguém que tivesse sobrevivido a um furacão e não dissesse uma palavra sobre o furacão no diário. Voando pela sala, estendendo os braços para pegar o diário flutuante, o telhado subindo em espiral ao céu, ele escreveria: “Me sentindo meio deprimido hoje. Vou jogar pif-paf.”

 

Inscreva-se em nosso canal do Telegram: https://t.me/editoradanubio 

Artigos recentes

Como acompanhar as notícias

Resolvi me afastar para ler os livros que sentia que precisava e que não estava tendo tempo. Cerca de alguns meses depois, em conversa com amigos sobre as notícias mais recentes, sobre as quais eu pouco ou nada sabia, percebi que a apreensão e interpretação deles era incrivelmente superficial e eu, apesar de distante das notícias, entendia muito melhor o contexto em que elas haviam ocorrido.

O Poder Americano

A obsessão antiamericana de certa esquerda romântica é sem dúvida alguma um erro geopolítico primário, uma postura inaceitável e imatura que, dentre outras coisas, expressa um complexo de inferioridade frente ao gigante do Norte. Mas há outra postura igualmente equivocada que consiste na exaltação acrítica e eufórica da civilização americana.

O espírito burguês

O rico, escravizado espiritualmente pela prosperidade e dominado pela ambição de escravizar os outros, é um prisioneiro do “mundo”; e é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que uma pessoa assim entrar no reino de Deus.

O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos

R$59,00

Apenas 1 em estoque

Detalhes do autor

Alexandre Soares Silva

Alexandre Soares Silva

Alexandre Soares Silva nasceu em 1968. Publicou três romances, A Coisa Não-DeusMorte e Vida Celestina e A Alma da Festa, além de uma coletânea de ensaios, A Humanidade é uma Gorda Dançando em um Banquinho. Trabalha como roteirista e vive em São Paulo.

1 Comentário

  1. matheusgalletti23

    Sensacional, esse texto me dá uma paz porque percebi que o certo é deixar essas suburbanadas de lado mesmo.

    Responder

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

X