Os Robespierres da Saúde Pública

12, out, 2021 | Artigos | 0 Comentários

Este texto é um trecho do livro Vírus e Leviatã, publicado em fevereiro de 2021 e disponível nas melhores livrarias.

Por Aldo Maria Valli

Proponho ao leitor um pequeno teste. Qual era o nome do órgão de governo estabelecido pelos revolucionários franceses no 17º germinal do ano I (isto é, 6 de abril de 1793)? Isso mesmo, adivinhaste: Comitê de Saúde Pública. E quais eram seus poderes? Sim, certo: devia fazer supervisão, e era autorizado a tomar decisões por decreto em circunstâncias consideradas de especial urgência e necessidade. Isso te lembra de alguma coisa?
Nihil sub sole novum!

Como a revolução sempre devora seus filhos, poderíamos dizer que, afinal, se trata apenas de esperar, que o Robespierre de plantão acaba guilhotinado. Mas, em nosso caso, não é tão fácil estabelecer quem são exatamente os novos Robespierres. Eles, agora, não têm como alvo uma única nação e um só povo, mas o mundo inteiro.

Em seu Estado e Revolução, Lênin, citando Marx, escreve que “o primeiro decreto da Comuna foi a supressão do exército permanente e sua substituição pelo povo armado”. Trata-se, com efeito, de uma medida tipicamente revolucionária: se o objetivo é impor a ideologia, é necessário que cada cidadão se sinta e seja um soldado, empenhado neste sentido.
A declaração de Lênin veio à minha mente quando vi, no caso da pandemia, como fomos induzidos a nos transformar todos não apenas em pacientes, mas também em soldados em armas, mobilizados não só contra o vírus, o “monstro assassino” a ser combatido
em uma luta sem lugar definido, mas inclusive contra aqueles que, relutantes em se identificar com a narrativa dominante, pediam para ir devagar com a supressão e limitação das liberdades fundamentais. Porque a liberdade é coisa fácil de se perder, mas difícil de se recuperar, e porque tal precedente (menos liberdade devido a uma proclamada “emergência”) pode ser bastante perigoso.

Descobri como é difícil abordar o assunto, mesmo com as pessoas mais próximas e abertas à discussão. O risco de perder a liberdade, ou pelo menos porções significativas de liberdade, parecia algo um tanto remoto e teorético em comparação com o perigo, sentido como mais próximo e concreto, constituído pelo vírus assassino. Então, quando eu tentava pôr num prato da balança a saúde e no outro a liberdade, fui visto, na melhor das hipóteses,
como um idealista ligeiramente atordoado, incapaz de enfrentar a realidade, e, na pior, como um sabotador.

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Toda revolução, como toda guerra, precisa de heróis, e nós os tínhamos. Lembro-me dos artigos e das entrevistas com médicos e enfermeiros: a retórica usada naquelas circunstâncias, especialmente no noticiário, tinha pouco a invejar à propaganda
revolucionária. Claro que não tenho nada contra heróis, muito menos contra nossos médicos e enfermeiros: estou falando sobre os meios utilizados pelos veículos de informação do Estado.

Nos consideramos uma sociedade caracterizada por uma cultura desencantada, mas durante a crise do coronavírus mostramos ser capazes de nos tornarmos, de um dia para o outro, uma tropa
disposta a marchar sob as bandeiras preparadas para nós pelo governo. “Saúde”, “Segurança”, “Colaboração”, “Responsabilidade”: estas são as palavras-chave. Era como se fôssemos diariamente convocados a participar da procissão de lutadores revolucionários pelo direito à saúde.

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Detalhes do autor

Aldo Maria Valli

Aldo Maria Valli

Aldo Maria Valli é um jornalista italiano nascido em 1958. Graduado em Ciências Políticas pela Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão.
 
Trabalhou em diversos veículos de comunicação, com destaque para a revista Ares, o jornal Avvenire e a emissora de televisão RAI. Desde 1996 atua como vaticanista no telejornal TG3, em Roma. Acompanhou o papa João Paulo II em mais de 40 viagens internacionais.
 
Escreveu diversos livros sobre política, religião e jornalismo. Mantém o blog Duc in altum.

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