Quem tem medo de Mário Ferreira dos Santos?

15, mar, 2021 | Artigos | 2 Comentários

 
Por Elvis Amsterdã
 

Em pronunciamento do senador Arthur Távola de 29 de maio de 2002, publicado no Diário do Senado Federal, somos informados de que a Presidência da República – durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso – foi ocupada pelo filósofo Henrique Cláudio de Lima Vaz. É o Vaz no poder. Não por ele pessoalmente, mas por seus alunos, seguidores, militantes, ou como quer que se queira designar. O fato é que Lima Vaz atuou e certamente atua no pensamento e política  nacionais de modo mais intenso do que se poderia atribuir aos demais filósofos do Brasil. (Vejam isso aqui: http://www.padrevaz.com.br/index.php/biografia/depoimentos-sobre-lima-vaz )

Acrescente-se ainda o artigo Quem tem medo da filosofia brasileira?, do filósofo brasileiro nascido colombiano Ricardo Vélez Rodrìguez, em que afirma:

“Aconteceu, na seara da filosofia, estranho fenômeno de colonialismo cultural que foi extinguindo progressivamente tudo quanto, no nosso País, cheirasse a estudo do pensamento brasileiro ou à consolidação de uma filosofia nacional. Os artífices dessa façanha (ocorrida nas três últimas décadas do século passado) foram os burocratas da CAPES no setor da filosofia, comandados pelo Padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz.”

Certamente a filosofia de Mário Ferreira dos Santos não se enquadra de modo algum nem nos anseios políticos imediatistas nem nos desejos de poder da classe universitária. Apesar de tudo, confesso: fui bolsista da CAPES em mestrado sobre Mário Ferreira dos Santos, certamente por graça de Deus e da Virgem Santíssima. Na universidade brasileira o Mário é um ilustre desconhecido. Por exemplo, muitos – ou quase todos – são os que ignoram que o nome do Mário ganhou nova luz do sol graças ao trabalho do Professor Olavo. Este sim merece o título: Quem tem medo de Olavo de Carvalho, o maior filósofo brasileiro?

Atualmente, falta quem tenha medo de Mário Ferreira dos Santos, porque conseguiram silenciar de tal modo seu nome que já não se pode temer um gigante desconhecido, não um gigante de fábula, mas um gigante do olvido. Culpa nossa, que temos uma bomba atômica cultural e não lhe damos o protagonismo devido. Eu mesmo que o estudo há tanto tempo ainda não encontrei os meios lingüísticos adequados para expô-lo e aproveitá-lo o máximo possível. Na verdade, atualmente apenas quem o estuda ou sonha em estudá-lo é que o teme, dada a grandiosidade de sua obra e a dificuldade de alguns passos, sobretudo aqueles que dizem respeito à Mathesis Megiste, a última fase de seu pensamento.

Certo temor inibe o sacrilégio. Certo outro nível de temor, induz ao sacrilégio. No primeiro, amamos e nos desviamos de macular a coisa amada. No segundo, quer-se destruir o quanto antes o objeto do ódio, para evitar que a coisa odiada cresça em força e notoriedade. Atualmente, encontramos muita gente que ama Mário Ferreira dos Santos, mas ainda sem a devida coragem de enfrentar mais audaciosamente seus livros, com aquele impulso de quem aceita estudá-lo por 20 anos; porém, há sim aqueles que temem o Mário, temem que o maior brasileiro de sempre seja esquecido que nem a sua lápide cheia de mato no cemitério do Araçá.

Infelizmente, não há mais quem tema e odeie Mário Ferreira dos Santos. Odiaram o Mário quando vivo. Odeiam agora só o Olavo, que sintetiza a contento a independência filosófica não-universitária brasileira. Mário Ferreira, acredito, bem como o Padre Maurílio Penido, Miguel Reale e alguns outros podem dividir os ódios e aliviar o alvo supremo da ira, espero.

Porém, agora que tenho um filhinho pequeno, um brasileirinho de dois mês de idade, preocupo-me com nova afectividade com os destinos de nossa Língua e do pensamento nacional. Espero que ele saiba amar e odiar (com ódio sagrado) o que deve ser amado e o que deve ser odiado, o que deve ser temido e o que deve ser desprezado, em sua insignificância e banalidade.

E quem é Mário Ferreira dos Santos? O brasileiro Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), nascido em Tietê-SP e educado por padres jesuítas em Pelotas-RS, é autor de um conjunto de obras organizadas sob o título de Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, das quais publicou pelo menos três dezenas nos últimos dezesseis anos de sua vida e cujos volumes são dispostos em três séries − síntese, análise e concreção – em que as fases inicial e última respeitam a uma seqüência matemática correspondente às dez leis pitagóricas, por ele desenvolvidas em livros como Pitágoras e o Tema do Número e A Sabedoria das Leis Eternas. A série sintética, iniciada por Filosofia e Cosmovisão, é encimada por Filosofia Concreta, em três volumes, obra fundamental, coroa da exposição daquilo que designa como filosofia positiva e concreta. Filosofia Concreta consiste num tratado de axiomática que, ao partir de uma intuição iluminadora inicial e através das operações lógicas mais variadas e complexas, extrai juízos virtuais contidos nos juízos anteriores, interligados por um “nexo de necessidade”.

De um ponto arquimédico, uma verdade evidente por si mesma, imediata e indemonstrável, mas mostrável, desenvolve-se esse tratado de matemática ontológica, de metamatemática, que não se estriba nos recursos da matemática de cálculo, Logistikê para os pitagóricos, mas numa de grau superior e propriamente metafísica. Parte do axioma alguma coisa há e o nada absoluto não há e deriva 327 teses, acompanhadas das devidas confrontações dialécticas e demonstrações lógicas. Mário propõe uma metodologia de “raciocinar tríplice”: um ascendente, um estabilizador e um descendente; e a dialéctica-ontológica é justamente o método ascendente, que sobe à cata de verdades que valham para todo o sempre. Ela busca juízos de necessidade e até de exclusividade, aqueles que nos dão certeza do conhecimento de algo, universalmente válidos e apodíticos. Incontornavelmente, essa metodologia impõe-se uma nova fundamentação da Metafísica, provando que esta não é uma disciplina vã e nem tampouco vagabundeio de idéias. Mário Ferreira não adere a nenhum ismo, mas se sente perfeitamente confortável como continuador das linhas sólidas da filosofia clássica grega, e também daquilo que considera o cume do pensamento ocidental: os séculos XIII e XIV e a filosofia ibérica dos séculos XVI e XVII.

Quem não o teme é louco de pedra, não tem noção da força filosófica que nele há e que pode transformar culturalmente nosso país. Um dia, quem sabe, teremos em altos postos indivíduos que leram A Sabedoria dos Princípios e professores universitários que conheçam o Filosofia Concreta. Quando fiz graduação na Universidade Federal do Maranhão, conheci um único professor que tinha lido o Mário: Professor Raimundo Portela. Na Federal de Santa Catarina, meu orientador português João Lupi. Agora, já se ouve falar de Mário Ferreira dos Santos na internet, mas ainda não com o correspondente e urgente apreço intelectual convertido em livros e teses acadêmicas.

Mário Ferreira dos Santos é o maior filósofo do Brasil, o maior dos brasileiros de sempre, a maior inteligência nacional; quem não o teme com amor, ignora o fundamental deste país. Quem o teme com ódio, odeia o Brasil.

 
 
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Detalhes do autor

Elvis Amsterdã

Elvis Amsterdã do Nascimento Pachêco, nascido em São Luís-MA em 1982, graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão e concluiu mestrado em Ontologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, com a dissertação A Dialéctica-Ontológica de Mário Ferreira dos Santos.

Como professor de Filosofia, trabalhou na própria universidade em que se graduou e também na Universidade Estadual do Maranhão e no Instituto Federal do Maranhão.

É aluno do Curso Online de Filosofia, do Professor Olavo de Carvalho, e estuda a filosofia brasileira desde 2000, à qual dedica o principal de seus esforços. Atualmente, ministra cursos livres sobre Lógica Clássica e sobre Mário Ferreira dos Santos na plataforma Contra os Acadêmicos.

2 Comentários

  1. Levy Geralte da Silva

    Muito orgulho de ter sido discente do Prof. Elvis na Univ. Estadual do Maranhão, na disciplina de filosofia, onde comecei a ouvir falar de autores e conceitos que nunca tinham chegado aos meus ouvidos até então. Novas reflexões e perguntas, e uma nova visão de que o Conhecimento não é um monte de ismos e principalmente relativismos.
    Que nosso País possa sair de seu labirinto fatídico de habitar no Hades e acordar para um novo destino.
    Sou docente aposentado da Rede Federal de Ensino. Formado em Farmácia (UFF), Química e Supervisão Pedagógica (UFRJ), Mestre em Agroecologia (UEMA), desistente de “atuante jurídico” (Direito) e atualmente bacharelando em Ciências Contábeis.
    “Ora la terra era corrota davanti a Dio; la terra era piena di violenza. E dio guardó la terra, ed ecco, era corrota, poiché ogni carne seguiva sulla terra una via di corruzione.” GENESI 11-13

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  2. L. Lima

    “Filosofia Concreta consiste num tratado de axiomática que, ao partir de uma intuição iluminadora inicial e através das operações lógicas mais variadas e complexas, extrai juízos virtuais contidos nos juízos anteriores, interligados por um “nexo de necessidade”.” — Eis o verdadeiro filósofo, na acepção platônica do termo. Pois, afinal, quando uma operação lógica poderá te dar a certeza de que A não é uma outra coisa ( A=A e Terceiro Excluído)? Apenas partindo da intuição iluminadora há essa certeza, o resto é doxa. O acadêmico moderno é um sofista. Gostaria muito que o professor Olavo dedicasse tempo a nos brindar com um livro sobre o intuicionismo radical, em vez de perder tanto tempo com política – essa megera que dança sempre a mesma dança no salão da história. Teríamos duas bombas atômicas então: a Filosofia Concreta e o Intuicionismo Radical. E talvez, quem sabe, sobre esses pilares ergueríamos de novo o Templo em que Poesia e Ciência seriam uma coisa só novamente.

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