O Nojinho da Retórica

9, mar, 2021 | Artigos | 0 Comentários

 
Por Cristian Derosa
 
 
 
Os conservadores têm certo nojinho do discurso retórico. Por isso, acabam torcendo o nariz para textos sem referências a algum escritor, preferindo sempre fazer uma demonstração de erudição para o seu público. Acontece que o discurso retórico é o único que tem poder real de influência na opinião pública e ele pode ser uma camada superficial que esconde uma profunda discussão dialética percebida somente por quem interessa e por quem pode aproveitar, sendo, porém, ao mesmo tempo, perfeitamente compreensível ao grande público a partir de imagens consagradas no imaginário popular atual.

 

O discurso retórico é útil para a aplicação dos valores mais elevados dentro do universo semântico e do imaginário popular usual. Com usual quero dizer aquele que está em uso pela grande mídia, pois o discurso retórico se dirige ao grande público que, por definição, é também o público do campo adversário. É claro que não faz parte do objetivo retórico convencer o adversário da verdade, uma vez que o ambiente de debate é marcado justamente por uma desigualdade de objetivos, ambos alheios à busca da verdade. Esta é a base do que eu chamo de “fingir estar fingindo”, ou seja, através da mesma retórica do adversário você pode constrangê-lo diante da plateia confrontando-o com o seu próprio sistema de valores (ou aparência de valores).

Um exemplo é utilizar a palavra fascista ao invés de comunista: você não vai conseguir, sozinho, dar uma conotação negativa ao comunismo ao ponto de usá-lo como adjetivo que imita uma descrição, como é o caso do fascismo. Em termos dialéticos e de médio ou longo prazo, é preciso fazer isso, mas dentro de outro campo discursivo. Ainda assim, o que o professor Olavo de Carvalho fez e faz há anos é utilizar o retórico como uma fina camada discursiva, debaixo do qual despeja uma profunda e sincera descrição da conjuntura e do jogo dos poderes concretos. Nem sempre podemos chegar a tanto, porém. É claro que é preciso, primeiro, formar-se no entendimento suficiente do contexto e do poder real e adaptá-lo retoricamente ao modo de entendimento de uma plateia acostumada a sentimentos e jogos emocionais.

Por isso, não é possível introduzir palavras com base em conceitos racionais no léxico do público que se deseja influenciar, embora seja possível, em certa medida, “colorir” novas propostas imaginárias (que incluem palavras ou termos) com as cores novas de um novo sentimento (não por meio de conceituações científicas ou dialéticas). Para isso, deve-se utilizar o próprio sistema de emoções associadas aos seus equivalentes semânticos do imaginário popular. Por exemplo, você pode aos poucos introduzir a palavra comunista como sinônimo de fascista, desde que as associe de forma sentimental. Comunista, como adjetivo, soa direitista e, em alguns casos, traz a imagem do paranóico da guerra fria, alguém desconectado do mundo atual. Ao mesmo tempo, fascista pode soar militante de esquerda, que no imaginário da esquerda “limpinha” (Dória, Novo, FHC) igualmente remete a alguém não muito alinhado ao “mundo globalizado”. Basta, portanto, buscar o “lastro” do sentimentalismo da palavra fascista, que hoje se encarna em palavras como radical, fanatismo, polarização, discriminação, preconceito.

Essas palavras, isto é, esses sentimentos associados, podem ser ligados de forma prática às palavras que se deseja usar, como comunista. Ainda assim, penso eu que é melhor usar essa palavra quando for associar a governos como a China, Coreia do Norte, Venezuela, e não à esquerda globalista que domina o discurso atualmente, o que pode perder relevância ao trazer aquela associação mencionada nos casos da esquerda limpinha. Chamar de comunista um globalista pode ser correto em algum sentido, mas pode apenas conceder o poder aos adversários para um estereótipo com função de tornar sua mensagem irrelevante e portanto inútil.

 
Entrevista de Cristian Derosa em nosso canal do Youtube: https://youtu.be/SwJSAJI9jYQ
 
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Detalhes do autor

Cristian Derosa

Mestre em jornalismo pela UFSC e autor dos livros: “A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda”(2016), “Fake News: quando os jornais fingem fazer jornalismo”(2019) e Fanáticos por poder: esquerda, globalistas, China e as reais ameaças além da pandemia (2020). Editor e colunista do site Estudos Nacionais e aluno do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho.

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