Modernidade e Racionalismo

6, out, 2021 | Artigos | 0 Comentários

Este artigo é um trecho do livro “Raízes do Totalitarismo: uma visão a partir de Mises e Hayek”, publicado em setembro de 2021. 

Por Guilherme Paoliello

Michael Oakeshott (1901-1990), pensador conservador britânico, fez uma importante crítica ao racionalismo moderno e seu impacto na política. Seu pensamento é tomado aqui como um primeiro ponto de partida para entendermos as bases epistemológicas que levaram o pensamento político moderno ao totalitarismo. As idéias que expomos aqui foram extraídas dos textos Racionalismo na política, pequeno ensaio de 1947, e A política da fé e a política do ceticismo, publicado após a morte do autor e “concluído, provavelmente, em 1952” (FULLER, 2018, p. 12).

Para Oakeshott, a política moderna é toda ela marcada por uma filosofia que ele denomina racionalismo. O racionalismo moderno seria a “mais notável moda intelectual da Europa pós-renascentista” (OAKESHOTT, 2016, p. 15), fluindo por toda parte e contaminando toda a política. Até mesmo os críticos da política racionalista teriam sido obrigados a se render a alguns dos pontos que caracterizam o modo de pensar racionalista. O racionalismo, segundo Oakeshott, luta pela independência da mente, pelo pensamento liberto da sujeição a qualquer autoridade exceto a da razão. Ele combate o preconceito, entendendo por isso tudo aquilo que se apóia apenas na tradição, no costume, no hábito. É, ao mesmo tempo, cético e otimista. Seu ceticismo se expressa no fato de submeter tudo ao questionamento da razão. Seu otimismo, por outro lado, fala através da fé no poder da razão para determinar a verdade das coisas e para organizar o mundo social. Para o racionalista moderno, a razão é uma capacidade potencialmente disponível a todos e deve ser o fundamento comum da vida social. Na visão racionalista, a sabedoria histórica é freqüentemente vista com desprezo e o passado como um obstáculo a ser superado. O ideal racionalista é o ideal de uma mente desprendida, independente, que se auto-sustenta e se autofundamenta na razão, não precisando do amparo dos costumes, herança cultural e tradição.

O racionalista deseja reduzir a complexidade da realidade à leis, esquemas e fórmulas da razão. Para ele, a política deve ser um esforço de trazer todas as coisas ao escrutínio da razão. Ele não acredita em reformar e aperfeiçoar o velho, mas apenas em destruir o que não passa pelo crivo da razão. Só tem valor o que é consciente, o que é traduzível e transmissível pelos critérios da razão. No campo político, segundo Oakeshott, a onda racionalista que dominou a modernidade, impulsionando-a, caracteriza-se pelo desejo de substituir tradições e costumes – enfim, aquilo que é considerado inconsciente e irracional – por ideologia e organização racional a partir de princípios ideológicos.[1] O racionalismo acaba assim por encarar a política como um tipo de engenharia social cujo objetivo é refazer a ordem social, colocando o ordenamento ideológico onde antes havia a ordem das tradições, costumes e hábitos. O papel da política seria, portanto, passar uma borracha no passado e refazer a ordem social sobre bases racionais/ideológicas. O mito do racionalismo, na visão de Oakeshott, é a transformação da política em engenharia.[2]

[1] O termo ideologia será quase sempre utilizado neste trabalho para designar uma doutrina política com a qual se visa reformar ou refazer a realidade. Quando falamos de ideologia aqui, portanto, não utilizamos o conceito no sentido marxista de falsa consciência ditada por interesses de classe.

[2] “Essa assimilação da política com a engenharia é justamente o que se pode denominar de política racionalista” (OAKESHOTT, 2016, p. 23)

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Detalhes do autor

Autor Aldo Maria Valli

Guilherme Paoliello

Nascido em Belo Horizonte, Guilherme Dantas Paoliello é mestre e doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Como pesquisador, desenvolveu trabalhos para a Fundação Dom Cabral. Raízes do Totalitarismo: uma visão a partir de Mises e Hayek é o seu primeiro livro.

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