Mário Ferreira dos Santos sou eu e sei do que escrevo

1, abr, 2021 | Artigos | 0 Comentários

 
Por Elvis Amsterdã
 

Tomei café com um dos maiores lógicos do mundo – figura notável, não apenas pela sua relevância em campo tão disputado, mas também por sua proficiência lingüística: é um professor de Lógica que sabe falar, consegue terminar uma frase com sujeito-verbo-complemento, certamente um sobrevivente dos tempos antigos e ante-diluvianos.

O Professor K sentou-se com um grupo de alunos, saídos havia pouco de sua aula na universidade, e começou a trocar amenidades com todos. Perguntou-me: “o que você estuda?” – Faço mestrado sobre a dialéctica-ontológica de Mário Ferreira dos Santos. Esse professor anteriormente já me tinha indagado a mesma coisa, ao que àquela altura ele concluiu de minha resposta: “O pessoal do PT deve te achar um otário.” Dessa vez ele mudou o repertório e devolveu à minha resposta uma segunda pergunta: “E tem conteúdo para um mestrado?” – Com certeza tem conteúdo para um doutorado e muito mais, eu lhe disse.

K, então, nos confessou: conheci Mário Ferreira dos Santos na frente de sua livraria em São Paulo. Eu estava com minha noiva e vi no mostruário aquela penca de livros de todos os assuntos e disse para ela: “esse cara escreve sobre tudo, não deve saber nada do que escreve”. Porém, Mário Ferreira dos Santos estava por trás de mim e me disse: “Mário Ferreira dos Santos sou eu e sei do que escrevo”.

Passaram-se pelo menos 50 anos do encontro de NK com MFS e agora ele me pergunta “tem conteúdo para um mestrado?” Ele não mudou em nada sua concepção de diante da vitrine, porque não leu nada dos livros de Lógica do Mário, a quem ele julgou sem conhecer. Não leu Lógica e Dialéctica nem os 3 volumes de Métodos Lógicos e Dialécticos nem Grandezas e Misérias da Logística, nem sabe da axiomática por trás do Filosofia Concreta, para ficarmos no campo de interesses de K. Não sabe nem vai saber, porque brasileiro não acredita em outro brasileiro. Vício semelhante se vê em Miguel Reale, que não conseguiu perceber no Mário mais do que um comentador de Nietzsche.

Pelo que vi no decurso da conversa com K, o que mais o inquietava é que alguém pudesse escrever tanto sobre tantos assuntos: sobre Lógica, Ontologia, Psicologia, Noologia, Filosofia da História, Filosofia da Cultura, sobre obras específicas de Platão, Aristóteles, sobre fragmentos dos pré-socráticos, sobre Retórica, Simbólica, Sociologia etc. O incrível era que um só homem tratasse de tantas matérias.

Mário acreditava que não seria verdadeiro filósofo se não pudesse tratar de todas as matérias filosóficas; mas convenhamos: sempre foi assim. Hoje é que acreditamos que basta ser especialista em certa disciplina filosófica para ser considerado filósofo em acepção eminente. Mário também acreditava que o brasileiro está numa posição privilegiada ante a história da Filosofia, porque tendemos a abarcar o universal e vivemos na própria carne o universal.

Sua Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, que abrange todas as disciplinas filosóficas conhecidas e mais algumas por ele desenvolvidas, é a coletânea filosófica mais lógica e mais dialéctica que se poderia esperar do filho de um povo que vive a dialéctica nos nervos e na mistura das raças. Mário consegue abarcar horizontes que outrora e ainda agora não foram abarcados por nenhum outro pensador nacional. Porém, mesmo que muitos (mas não todos) tenham desacreditado de suas capacidades e das capacidades dos brasileiros em geral, é digno de observação que o filósofo e Padre letoniano Stanislavs Ladusãns, S.I., dedicou-lhe uma nota publicada na Revista Portuguesa de Filosofia (Braga, Janeiro-Março, 1969, Tomo XXV, Fasc. 1) em que afirma:

Harmoniza o seu pensamento filosófico com a Revelação Cristã, querendo construir uma ponte entre Metafísica e a Religião revelada, para dar um novo método apto para instruir e formar as mentes de hoje. Oferece um sistema sapiencial. Embora manifeste alguns defeitos de autodidatismo no campo filosófico (é só doutor em Direito), é um filósofo cristão de valor. Durante toda a sua vida dedicou-se à Filosofia e deu algumas contribuições válidas para o progresso da Filosofia. (Grifos meus)

Igualmente o Padre italiano Carlos Beraldo, S.I., em verbete dedicado ao Mário na Enciclopedia Filosofica do Centro di Studi Filosofici di Gallarate, depois de afirmar que a “síntese filosófica” do Mário “é, ao mesmo tempo, tradicional e pessoal”, conclui:

Apóstolo incansável e solitário da sabedoria, no sentido tradicional e antigo, M.F. dos S. se esforçou por formular uma filosofia que, embora ficando sempre aberta a novos problemas, fosse ao mesmo tempo, de nome e de fato, “perene” e “ecumênica”.

Aqui certamente temos matéria para mestrados, doutorados, livros, enfim, até mesmo porque, se o Padre Ladusãns está certo, ele “deu contribuições válidas para o progresso da Filosofia” e, se o Padre Beraldo também acerta, uma filosofia aberta a novos problemas pode remediar as novas enfermidades filosóficas que nos atacam. Acredito até que, se a filosofia do Mário é positiva e concreta, ela pode e deve ser continuada, porque aqui não falamos de fim da Filosofia, nem fim da sabedoria, exceto fim como destino em Deus.

Por onde, então, começar? Quais os problemas que devemos desenvolver? Sugiro que se leia as páginas iniciais do Filosofia Concreta, aquelas que dizem respeito às 10 primeiras teses, o que corresponde a umas 45 páginas. O estudo disso tudo é matéria para muitas vidas e certamente fortalece nossa confiança psicológica na busca da verdade e nos dá o fundamento ontológico dessa confiança, porque alguma coisa há e o nada absoluto não há. Depois, com a leitura de outros livros da Enciclopédia, cada um pode encontrar um caminho próprio e lutar por resolver seus próprios problemas. Em Filosofia e Cosmovisão, o Mário afirma que se deve desenvolver uma Metafísica da Afectividade; em Filosofia Concreta, podemos encontrar o caminho para uma Metafísica segura; em A Sabedoria dos Princípios, podemos nos dar conta da insuficiência da abstração para atingir a verdade apodítica, enfim. Certamente, muitas são as questões que podem responder à pergunta “e tem conteúdo para um mestrado?”. Porém, hoje precisamos urgentemente dizer: Mário Ferreira dos Santos eu li e sei do que ele escreve.

 
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Detalhes do autor

Elvis Amsterdã

Elvis Amsterdã do Nascimento Pachêco, nascido em São Luís-MA em 1982, graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão e concluiu mestrado em Ontologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, com a dissertação A Dialéctica-Ontológica de Mário Ferreira dos Santos.

Como professor de Filosofia, trabalhou na própria universidade em que se graduou e também na Universidade Estadual do Maranhão e no Instituto Federal do Maranhão.

É aluno do Curso Online de Filosofia, do Professor Olavo de Carvalho, e estuda a filosofia brasileira desde 2000, à qual dedica o principal de seus esforços. Atualmente, ministra cursos livres sobre Lógica Clássica e sobre Mário Ferreira dos Santos na plataforma Contra os Acadêmicos.

Saiba mais: www.elvisamsterda.com.br

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