Fábio Gonçalves: O Nascimento de um Escritor

19, fev, 2021 | Artigos | 0 Comentários

Este texto é o prefácio na novela Um Milagre em Paraisópolis, de Fábio Gonçalves.

Por Paulo Briguet

“O que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco.” (1Jo 1, 3)

Nos últimos quarenta anos, a literatura brasileira foi uma terra desolada, um deserto povoado por sombras e pedras. Na medida em que se calavam as últimas vozes da alta cultura — Autran Dourado, Herberto Salles, Josué Montello, Bruno Tolentino, Ariano Suassuna, Ferreira Gullar —, o espaço era ocupado por uma algaravia de simulacros cujo movimento pendular ia do vanguardismo oco ao psicologismo barato, quase sempre tributários de ideologias políticas insensatas, quando não criminosas. As poucas exceções à aridez reinante — um Domingos Pellegrini, um Dalton Trevisan, uma Adélia Prado — não eram suficientes para compensar o panorama desolador.

Mas não poderia permanecer infértil para sempre uma literatura que já teve um Machado, um Euclides, um Bandeira, um Freyre, um Carpeaux, um Drummond, uma Cecília, um Nelson, um Rosa, um Graciliano. Em algum lugar de nosso inconsciente coletivo, as sementes da grande arte literária aguardavam o momento de vicejar outra vez. Creio que esse momento chegou; e um nome que não me deixa mentir é o de Fábio Gonçalves, autor do livro que você tem nas mãos.

A novela Um Milagre em Paraisópolis é a primeira obra publicada de Fábio Gonçalves. Para mim constitui um motivo de orgulho e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade descomunal a tarefa de prefaciar este livro. Tenho a impressão de que, daqui a muitos anos, estas minhas palavras serão lidas por estudiosos da nossa literatura. Que eles não sejam demasiado severos comigo.

A ficção de Fábio Gonçalves é tão solidamente ancorada na realidade que acaba por se confundir com a própria realidade. Depois de ler Um Milagre em Paraisópolis, passei a acreditar piamente que o autor havia nascido e crescido na famosa favela paulistana. Mas isso não é verdade; Fábio, realmente, nasceu numa favela, mas em outra menos famosa, localizada em Diadema, na Grande São Paulo. A força minuciosa com que ele descreve ambientes, estabelecendo uma dinâmica narrativa rara de encontrar em escritores brasileiros contemporâneos, e combinando a linguagem culta com expressões coloquiais da urbe paulistana, fez-me pensar que ele era um cidadão de Paraisópolis.

Analisemos rapidamente esse nome: Paraisópolis. No Livro do Gênesis, deu-se o nome de Paraíso ao lugar em que viviam o homem e a mulher antes da Queda. Quando eles cedem à tentação da serpente e comem do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal — “Sereis como deuses”, disse a serpente —, são expulsos do Paraíso, cujas portas passaram a ser guardadas por um anjo com uma espada flamejante. Tempos depois, ocorre o primeiro assassinato bíblico, entre os filhos de Adão e Eva. Por inveja, Caim mata Abel, e é condenado a vagar pelo mundo. O que pouca gente lembra é que Caim vem a fundar a primeira cidade — a primeira pólis. O nome “Paraisópolis”, portanto, encerra um paradoxo, uma impossibilidade lógica. Nele estão, simultaneamente, o lugar perdido após um ato de desobediência e o lugar fundado sobre um ato de inveja.

A novela de Fábio Gonçalves tematiza esse paradoxo — que vem a ser o paradoxo da sociedade brasileira nos últimos 40 anos. Paraisópolis, contradição em termos, representa o drama do nosso povo, em que a luta pela sobrevivência material se sobrepõe às necessidades do espírito, impedindo o casamento entre o Céu e a Terra que é a marca das grandes civilizações.

O título da obra, porém, traz mais uma palavra-chave: milagre. Que outro nome podemos dar ao fenômeno de um rapaz nascido em ambiente pobre e violento, exposto continuamente aos riscos e tentações da criminalidade e do vício; que até os 22 anos considerava-se “um analfabeto de mola”; que de repente conheceu um professor chamado Olavo de Carvalho e começou a desenvolver amplos interesses intelectuais; que examinou o horizonte da própria ignorância; que se colocou em face da mortalidade e desvendou as camadas de autoengano em que sua consciência estava mergulhada; que começou a ler avidamente os clássicos da literatura; que aprendeu latim e outros idiomas; que passou a ouvir música clássica e a estudar história da arte e simbólica tradicional; que se interessou por Filosofia Política e leu quase toda a obra de Eric Voegelin; que em apenas um mês e meio escreveu um romance intitulado Peroba e com ele ganhou um prêmio nacional de literatura, enquanto nascia o seu primeiro filho, Pedro; e que fez tudo isso justamente no período em que o Brasil passava por transformações políticas e sociais jamais vistas em nossa história — a chamada revolução conservadora brasileira? Que nome daremos a isso tudo, senão milagre?

“Antena da raça”, Fábio Gonçalves revela, nos meandros de seu estilo em formação, a influência dos autores que promovem a grande conversação da literatura em todos os tempos. Sua voz literária ecoa autores do século XIX — Balzac, Flaubert, Proust, Manzoni, Dickens, Poe, Tchekhov, Tolstói, Machado —, autores do século XX — Faulkner, Maugham, Murilo Mendes, Jorge de Lima, José Lins do Rego, Jorge Amado — e alguns nomes da literatura contemporânea como Kundera e Houellebecq. No entanto, parece-me que o autor mais próximo ao seu universo é um russo que morreu há 140 anos: Fiódor Dostoiévski. A favela de Fábio Gonçalves é a sua estranha São Petersburgo, com bailes funks e sem noites brancas. Parece impossível, mas é ali que o milagre acontece — o milagre da nova literatura brasileira.

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Detalhes do autor

Paulo Briguet

Paulo Briguet é jornalista e escritor, editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Mora em Londrina/PR.

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