Deformações da História: Gnosticismo

29, mar, 2021 | Artigos | 1 Comentário

 
Por Glenn Hughes
 

Os antigos gnósticos reagiam às experiências da transcendência divina concluindo que o mundo em si mesmo é um lugar hostil e perverso, criação não de um verdadeiro deus do Além, mas de uma divindade má, ou de “potências inferiores” divinas. Dentro desse mundo, cada espírito (pneuma) humano se desgarrou de sua verdadeira fonte, mas é possível escapar da alienação na prisão do mundo e retornar ao verdadeiro deus do Além. No nível individual, o elemento aprisionador é não só o corpo, mas também a alma, uma vez que, para os gnósticos, explica Hans Jonas, não só o corpo mas também a alma “é um produto dos poderes cósmicos”, de modo que por meio “tanto de seu corpo como de sua alma, o homem é parte do mundo e está sujeito ao [destino mundano]”. Entretanto, confinado na alma “está o espírito, ou ‘pneuma’ (também chamado de ‘centelha’), uma porção da substância divina do além que caiu no mundo”. A salvação do espírito de alguém — sua centelha de divindade verdadeira — pode ser alcançada pela conquista do conhecimento correto (gnosis): conhecimento sobre o pneuma aprisionado em cada ser humano, conhecimento sobre o verdadeiro deus do Além e acerca da natureza e das origens de nossa prisão mundana, e conhecimento dos métodos ou técnicas que, quando praticados, garantirão a libertação.

[…]

Em A era ecumênica, Voegelin discute as origens experienciais da especulação gnóstica antiga. Como forma especulativa, é certo que ela surgiu de uma noção aguçada da transcendência divina descoberta por meio da busca por um fundamento convincentemente não-coisificado (ou “não-existente”) da consciência. É igualmente certo que ela reflete a “consciência escatológica” em seu anseio de união com o Além divino. Entretanto, adverte Voegelin, ela não devia, em si mesma, ser identificada como uma “diferenciação de consciência”, tal como o são as diferenciações grega (noética) e judaico-cristã (pneumática). Por que não? A resposta fica clara ao lembrarmos que, na ruptura da consciência cosmológica para a diferenciada, uma totalidade compacta da realidade, na qual o ser divino ainda é imaginado como mais ou menos compatível com as coisas mundanas, diferencia-se em (1) um fundamento transcendente divino e (2) uma ordem mundana que, embora não mais considerada compatível com o fundamento último, é ainda transparente em relação à sua origem no ser transcendente divino. Nas especulações gnósticas, todavia, não encontramos o cosmos uno difratado em dimensões complementares de transcendência divina e mundo divinamente ordenado. Em vez disso, o mundo criado, junto com o seu divino criador, ou criadores, é rejeitado como hostil e mau, como uma escuridão na qual as centelhas pessoais de divindade pneumática originadas de um “supra-além” foram aprisionadas. Esse não é um caso de distintas dimensões do cosmos uno, transcendência e imanência, sendo compreendidas em sua distinção; é uma quebra conceitual da unidade da realidade por meio de uma demonização do mundo e da divindade ou divindades responsáveis por criá-lo. Portanto, Voegelin descreve a visão gnóstica não como uma “diferenciação”, mas como uma “contração da ordem divina ao âmbito da existência pessoal”, em que uma redução extrema da verdadeira divindade a um “supra-além” descoberto na consciência — identificado como o verdadeiro Deus, acima das forças divinas que criaram este mundo — impõe uma rejeição de toda realidade mundana.

Voegelin salienta que as motivações das antigas especulações gnósticas são muito complexas. Estão sem dúvida relacionadas ao mistério e alienação resultantes das catástrofes políticas e da destruição civilizacional, causadas pela expansão imperial no ecúmeno ocidental durante os séculos que precedem e incluem a primeira era cristã. Não é difícil reconhecer o encanto da mensagem gnóstica sob condições de implacável desordem política e caos cultural, de guerra e colapso de instituições locais e crenças na esteira da conquista imperial. A “deformação gnóstica da consciência escatológica”, declara Voegelin, deve ser entendida como uma revolta contra uma existência vivenciada como tão caótica e miserável, a ponto de ter perdido qualquer significado intrínseco, uma revolta contra um mundo de escuridão e mal aparentemente intratáveis.

Este texto é um trecho do 4º capítulo do livro Transcendência & História, de Glenn Hughes, publicado no Brasil em 2018 pela Editora Danúbio. 

 
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Detalhes do autor

Glenn Hughes

Glenn Hughes, nascido em 1951, é professor de filosofia na St. Mary´s University, em San Antonio, Texas. Ele é membro do Eric Voegelin Institute e autor de vários livros sobre filosofia publicados nos Estados Unidos.  

Autor do livro Transcendência & História 

1 Comentário

  1. L. Lima

    É Interessante notar que no primeiro parágrafo, Glenn Hughes se refere a corpo físico, Alma e Pneuma, me lembra os momentos em que Cristo é acompanhado por apenas dois apóstolos. Talvez ele tenha sido induzido ao erro pela definição de Hans Jonas, de que Pneuma caiu no mundo, e de que os gnósticos odiavam o mundo físico. Talvez existiram seitas gnósticas que tinham literalmente essa aversão. Afinal, não há hoje pastores rezando pela morte de homossexuais? Então, no futuro, deveriam os acadêmicos concluírem que todos os protestantes eram assim? De qualquer forma, se considerarmos Alma, Pneuma e a “Queda” no mundo físico, isso não nos faz lembrar da expulsão do Jardim do Éden? Quem não concorda que o mundo em que vivemos não é um paraíso? Verdadeiramente, os acadêmicos estariam mais próximos do entendimento correto se considerassem Pneuma como o Cristo Interior de Santa Teresa d’ÁVila e de Hildegarda de Bigen.

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