O Covid, as políticas punitivas e o uso mistificatório do conceito de bem comum

24, maio, 2021 | Artigos | 1 Comentário

Artigo publicado no blog Duc in altum  

Por Aldo Maria Valli

Sob o Covid continuamos a ouvir discursos e a ler notícias marcadas pelo alarmismo, como se os meses que se passaram não nos tivessem ensinado nada. Mas a primavera de 2021 não é o inverno de 2020. Hoje conhecemos melhor o Covid e acumulamos experiência para melhor enfrentá-lo.

A esta altura, podemos dizer que os benefícios das escolhas do governo – em essência, a política de lockdown – foram superestimados e inflados, enquanto os danos que causaram, devastadores tanto para as pessoas quanto para as nações, foram e ainda são subestimados. Se me perguntares qual é o dano, eu respondo que é só olhar ao redor. Penso em crianças e adolescentes forçados a ficar em casa, em doenças não tratadas porque a saúde se concentrou no Covid, no aumento da depressão, suicídios e pornografia; no abuso de drogas; no desemprego; nas economias inteiras em colapso: um impacto catastrófico.

A esse respeito já existem muitas análises, mas os defensores das medidas restritivas, embora  tenham se mostrado injustamente punitivas e ilógicas, continuam a pontificar.

É preciso considerar também a agressão contra quem não se curva à narrativa dominante. Aqueles que têm uma visão alternativa devem lidar com reações, muitas vezes ameaçadoras e caluniosas, que, se podiam ter sido compreendidas, mas não justificadas, no início da pandemia, agora são inaceitáveis.

Sua única “culpa” é expressar dúvidas e reservas acerca da eficácia dos lockdowns e proibições sociais e pessoais altamente invasivas. A “culpa” é pedir políticas sociais e de saúde mais articuladas, divididas por grupos sociais, por faixa etária e pefil  dos destinatários, evitando medidas generalizadas, muitas vezes arbitrárias e destrutivas. E por fim, no que diz respeito às vacinas, existe a “culpa” de pedir respeito ao direito à liberdade de escolha, previsto e amparado pela nossa Constituição e, portanto, o direito de não serem injetadas com substâncias que ainda devem ser consideradas experimentais porque não houve tempo para testá-las suficientemente.

E se as críticas são formuladas por um católico, a acusação fica ainda mais pesada: como ousas falar assim? Não percebes que estás em contradição? Só tu, que te inspiras numa mensagem de bondade, de partilha e de altruísmo, te posicionas contra as medidas tomadas em nome do bem comum? Não ouviste o Papa Francisco? Não sabes que ele definiu tomar a vacina como um dever ético?

Na origem desta mistificação está um conceito de bem comum, infelizmente também adoptado pela Igreja, que é pelo menos distorcido. Acredita-se que “bem comum” simplesmente equivalente à ausência de doença. O bem-estar psicofísico, mental e espiritual não é levado em consideração. Não se reconhece que políticas excessivamente punitivas e contrárias às liberdades fundamentais resultem em graves prejuízos à saúde entendida no sentido mais amplo e completo, incluindo todas as dimensões humanas.

Com base numa interpretação alarmista e tendenciosa do fenômeno Covid, continuam a ser tomadas medidas que visam alterar seriamente e a longo prazo a estrutura social e o comportamento pessoal.

A hipótese de introdução de passaportes de vacinação é preocupante. É curto o passo do passaporte à permissão de trânsito e, nesse caso, seríamos confrontados com uma chantagem. O salvo-conduto se tornaria uma espécie de certificado de bom comportamento e os cidadãos seriam divididos entre bons e maus com base em uma escolha que – estabelece a Constituição italiana – é e deve permanecer livre.

Especialistas (médicos, cientistas, psicólogos, observadores sociais) que não compartilham políticas de lockdown e alarmismo já são marginalizados e desqualificados como irresponsáveis. Nossas democracias liberais estão pagando um preço muito alto e não sabemos se seus valores fundamentais podem ser preservados.

Melhor súditos do que mortos, o título que o Censis deu ao seu último relatório sobre o estado do país, dá uma boa imagem da situação italiana. Estamos cada vez mais dispostos a abrir mão de nossas liberdades fundamentais porque temos medo de um vírus que, apesar dos dados, continua a ser retratado como um assassino implacável, que só pode ser enfrentado com vacinas. E a própria vacinação se tornou um motivo de discriminação. Se não aceitares, se contestares que as vacinas ainda não passaram em todos os testes de confiabilidade, se tentares explicar que antes de recorrer a vacinas que ainda não foram suficientemente testadas, há muitas possibilidades de intervenção (os tratamentos estão aí, assim como os médicos que as aplicam), se tentares dizer que os enormes recursos destinados à compra de vacinas poderiam ser destinados a fortalecer o sistema de saúde e permitir o atendimento precoce, passas a ser excomungado no sentido literal: a ser expulso da comunidade, do fórum civil.

A opinião pública está em grande parte presa de uma dissonância cognitiva segundo a qual a palavra dos “especialistas” que apóiam as políticas de lockdown e redução das liberdades não pode ser questionada. Estamos lutando contra um fideísmo cego, que se recusa a considerar a realidade como ela é.

As autoridades continuam apresentando números em termos absolutos e evitando percentuais. Evidentemente, acredita-se que os percentuais não são funcionais ao clima de alarmismo, que por sua vez é funcional à legitimidade de uma série de medidas punitivas.

Convém referir também que, em geral, tanto nos meios de comunicação de massa como no confronto quotidiano entre amigos, conhecidos e familiares, a dissidência foi agora “patologizada”. Se não concordas com a narrativa dominante, significa que és um egoísta nojento ou um tolo. Portanto, precisas ser marginalizado. Enquanto aqueles que introduziram políticas punitivas e ineficazes não estão nem um pouco dispostos a reconhecer seus erros, aqueles que se atrevem a fazer perguntas e levantar dúvidas são considerados um perigo público.

O fideísmo prevalecente exige que os sumos sacerdotes das políticas de lockdown sejam colocados em um plano intocável. Enquanto tu és retratado como egoísta, irresponsável e louco, eles, graças ao bumbo da mídia, conquistaram o direito de continuar apoiando teses consideradas confiáveis ​​a priori, mesmo que os efeitos das políticas decorrentes tenham se mostrado destrutivos. Eles são a nova casta sacerdotal, infalível e inexpugnável. Uma casta que opera com o apoio dos grandes meios de comunicação (TV e jornais), que por sua vez surfa no alarmismo porque viram a última praia da sua salvação. No meio de uma hemorragia constante de audiência, eles usam o terror para se manter à tona, para manter um papel e uma voz.

Os médicos que lutam por atendimento domiciliar e clamam por uma abordagem diferenciada e mais equilibrada para o Covid continuam a aumentar, mas não viram notícia. Hoje [8 de maio de 2021], em Roma, eles sairão às ruas, junto com seus pacientes que foram tratados e curados. Veremos qual será o tratamento que a grande imprensa reservará para o evento. O Ministro da Saúde será questionado por que os médicos locais não foram consultados e envolvidos na revisão dos protocolos de tratamento. Veremos se e como ele responderá.

Dentre as tantas questões, uma se destaca: por que ainda existem aqueles que pregam, como se fosse um mantra, a fórmula “dipirona e resguardo”, embora essa abordagem tenha se mostrado malsucedida?

A Dra. Andrea Mangiagalli, de Pioltello (Milão), insiste há meses na necessidade de uma intervenção imediata na casa do paciente. Os médicos do Comitê de Assistência Domiciliar do Covid 19, composto por clínicos gerais e especialistas, criaram uma rede nacional para o intercâmbio de conhecimentos e experiências. Milhares de pessoas foram atendidas com sucesso. Um esquema de tratamento domiciliar para o vírus tem se mostrado eficaz no campo, evitando a hospitalização e milhares de vítimas. Por que não é divulgado? Por que essas iniciativas não estão recebendo atenção e apoio? Talvez porque não custem nada e não tragam ganhos estratosféricos?

As diretrizes atuais consideram o clínico-geral um burocrata, um terminal de vídeo que deve se limitar ao controle remoto (mas o quê? Mas como?) Abster-se de fazer seu trabalho: tratar o doente e intervir o quanto antes.

Quando falamos em uma abordagem mais direcionada, articulada e equilibrada do Covid, queremos dizer que é preciso levar em consideração a idade, as patologias presentes no sujeito, os fatores que predispõem a maiores riscos para a vida. Em vez disso, continuamos a agir de maneira geral e uniforme.

Hoje, porém, na primavera de 2021, sabemos como devemos agir: trata-se de proteger os mais vulneráveis, manter a sociedade aberta e a economia funcionando, garantindo a liberdade de escolha dos tratamentos, lembrando que a liberdade e a dignidade da pessoa não podem ser subordinados a um pretenso “bem comum” sem que a relação custo-benefício seja clara.

Diante da recusa obstinada dessa receita, que é basicamente a do bom senso, é legítimo ter uma dúvida: a recusa decorre de um excesso de prudência ou de uma convergência de interesses econômicos e políticos?

Inclino-me para a conhecida resposta do lendário persoangem Quelo interpretado por Corrado Guzzanti [comediante italiano]: “A segunda que dissestes!”.

 

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Detalhes do autor

Aldo Maria Valli

Aldo Maria Valli

Aldo Maria Valli é um jornalista italiano nascido em 1958. Graduado em Ciências Políticas pela Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão.
 
Trabalhou em diversos veículos de comunicação, com destaque para a revista Ares, o jornal Avvenire e a emissora de televisão RAI. Desde 1996 atua como vaticanista no telejornal TG3, em Roma. Acompanhou o papa João Paulo II em mais de 40 viagens internacionais.
 
Escreveu diversos livros sobre política, religião e jornalismo. Mantém o blog Duc in altum.

1 Comentário

  1. Juliana Santana

    Excelente texto!

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