Alexandre Soares Silva: Um Mestre do Ofício

15, fev, 2021 | Artigos | 2 Comentários

Por Carlos de Freitas

Alexandre Soares Silva está entre os mais inventivos escritores brasileiros, embora ele mesmo diga ter fobia da literatura brasileira. Talvez por isso crie uma obra desvencilhada das obrigações estéticas provincianas e do nosso apelo socializante, condição indispensável para se tornar membro da patota midiática. Ignorado pelos críticos, ele precisa ser devidamente apresentado ao leitor.

Não é fácil situar o conto como gênero literário. É uma história breve? Concentra sua tensão em um único drama?  O escritor argentino Ricardo Piglia afirma, como uma de suas teses centrais, que o conto sempre traz duas histórias: uma secreta e uma aparente. Um exemplo dessa manobra do contista pode ser encontrado em “Colinas Como Elefantes Brancos”, de Hemingway, onde um casal que se despede numa estação de trem (história aparente) entabula uma conversa cifrada na qual prevalece o subentendido (história secreta).

Neste novo livro, Soares Silva parece levar essa tese às últimas conseqüências. É precisamente o que acontece, por exemplo, na narrativa que dá nome ao livro. A história aparente nos mostra um homem após o divórcio descobrindo que tem sentimentos e pode até mesmo expressá-los; já a história secreta, abandonando o subentendido, se transforma em parábola, a narrativa fantástica que ilustra o estupor do mundo atual diante de alguém ainda capaz de fazer alguma autoanálise.

Alexandre é um mestre do ofício. Nenhuma frase sua é costumeira, distraída. Dominando o ofício com muita ousadia, ele brinca seriamente com o texto e dosa o humor na medida certa. Há sempre um elemento inusitado, como quando o narrador de um dos contos diz: “terminou descrevendo um tronco humano cortado ao meio com a precisão de um Rembrandt do Lausanne Paulista. Helmut ficou impressionado”; ou então, em outra passagem: “— Acelero mais? — Tognolli perguntou, na mesma língua de Camilo Castelo Branco e do Maníaco do Parque”.

O que lemos em seus contos são os seus próprios pensamentos, é o seu jeito elegante, e um tanto excêntrico, de revelar que está cagando para os movimentos literários; ele prefere inventá-los. Ora as suas criaturas literárias são extravagantes, ora são heróicas, outras vezes são muito, mas muito, cavalheiras, ou então, como num dos contos presentes neste livro, o protagonista é simplesmente… Santo Antão!

Vemos um delicioso desfile de tipos insólitos, e o que a princípio parece estranho, à medida que as narrativas avançam, se converte em familiar. Começamos a nos identificar e encontrar nas personagens traços daquilo que toda família tem, mas no que têm  de mais exótico: o chulé azedo do irmão caçula, o jeito inoportuno do tio Afrânio cuspindo enquanto fala grudado na nossa cara, o som metálico das sandálias da tia Jandira se arrastando no porcelanato. E a partir daí nada, por mais fabuloso que pareça, já nos causa estranhamento, mesmo que seja um barão que foge para a floresta em noites de lua cheia, ou nazistas apaixonados por séries clássicas de televisão, ou até super-heróis brasileiros modernistas lutando no centro antigo de São Paulo.

Mas tudo isso é o aparente. Há um segredo por trás deste livro, uma verdade revelada pelo personagem de um dos contos: Alexandre Soares Silva pertence à casta secreta dos homens de bom gosto que vivem incógnitos e coexistem, no Brasil, com a casta aparente de intelectuais tagarelentos. Longe dos suplementos dos jornais, nunca entrevistado pelo Pedro Bial, desconhecido do público inteligentinho que toma café na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, vive (e escreve) aqui perto, escondido ali na Vila Madalena, o maior ficcionista de uma geração. É maravilhoso para o nosso ambiente cultural ver uma obra de Alexandre Soares Silva vindo à tona com destaque. É sinal de que, mesmo na UTI, nossa literatura ainda tem pulso e imaginação, muita imaginação.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é colunista e sub-editor do Senso Incomum

2 Comentários

  1. Vinícius

    A falsa modéstia do Alexandre Soares Silva é mesmo falsa. Eu sei que no fundo ele venderia a alma para ser entrevistado no Bial ou no Manhatam Connection, bem como para ter resenhas de duas páginas na Ilustríssima e no Aliás. Eu sei que ele venderia a alma para ser verbete de enciclopedias, cair no Enem, ser traduzido em 70 línguas. Mas ao mesmo tempo eu sei que, antes de vender a alma, ele exitaria um pouco e diante de um velho vendedor de alfarrábios, desistiria de vender sua alma para o showbizz literário e a trocaria por uma biblioteca de livros estranhos que ninguém lê e por dinheiro para ter sossego de pagar as contas enquanto escreve os mesmos livros só lidos por uns pouquíssimos felizes, estatisticamente tão desprezíveis quanto portadores de Delírio de Fregoli e assim morreria sossegado, lamentado e gozando a um só tempo, entre bocejos, não ter vendido a alma para o Bial, o Manhatam Connection, a Ilustríssima, o Aliás. Essa é minha interpretação do magnifico conto Tetê Macabra desse esplêndio “O Homem que lia seus próprios pensamentos”, uma interpretação não autorizada que apela para o método da imputação pseudo-autobiográfica não autorizada.

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  2. Arthur F. Abeilice

    Grande Carlos! e seus livros não escritos.
    Otimo Texto!

    Responder

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