A Vizinha (conto)

4, nov, 2021 | Artigos | 0 Comentários

Este é um conto que compõe o volume “O Retrato Doente e outros contos de morte e solidão”, livro publicado em outubro de 2021. 

Por Fábio Gonçalves

Tanto já era avançada a noite que no boteco xexelento só restavam o Tobias, num vai-e-vem danado, terminando de pôr as coisas nos trinques, e um velho em sobrecasaca e boina muito debruçado no balcão. Estavam mal iluminados por uma única lâmpada amarela-fosca pendida num fio desencapado e pelo jukebox com led multicolorido que ressoava baixinho uma seleção de boleros e bregas.

“Contini! Contini, meu amigo! Ah, não… Só isso, não! Larga mão de ser muquirana, Tobias. Bota mais. Quero lhe dizer uma história, homem. Vamos, bota mais; sem merreca. Tô com isso na garganta, meu amigo. Daqui a pouco me vira um câncer. É assim que nasce o câncer, sabia? É assim, de não pôr pra fora as coisas que doem no peito. Bote mais do Contini e me ouve aí, meu velho. Isso, homem de Deus. Bom, vamos lá. É o seguinte: cismei que a vizinha queria me assassinar.

A gente morava há mais de ano nos fundos daquele quintal e nunca trocamos mais de duas palavras. Nunca. Ela vivia trancafiada no seu cubículo, e eu, como também saía muito pouco por causa dessa maldita hérnia, via a vizinha quase sempre como um vulto passando na janela, zanzando de um lado pro outro. Você tinha que ver, Tobias, tinha que ver como aquela figura fazia medo.

Às vezes calhava de a gente se cruzar no corredor. Só que mesmo nessas ocasiões nossa prosa era gelada, nada mais que uns acenos tímidos e muita má vontade de parte a parte. Eu sempre desconfiado e ela sempre na dela, com aquele jeitão acabrunhado.

A vizinha acusava uns trinta. E era feia, meu amigo, feia. Um vara-pau, meio corcunda, cambitos valgos. E o pior: tinha uns passos de assombração. Suas chinelas se arrastavam pelo quintal fazendo chiado longo e angustioso. Aquilo me dava nos nervos, Tobias, me atrapalhava os juízos. Palavra.

Quando ela se mudou pra lá não tive essa mesma cisma. Digo, essa cisma de que ela queria me matar. Mas isto muito se deveu à dona do quintal, a boa Maria, senhorinha bastante gentil que estava sempre por ali, preservando o mínimo do decoro nas nossas relações. A Maria ia regar sua coleção de samambaias, orquídeas, boninas e camélias, e aparecia com o coração nas mãos, nos dando bons dias, não raro puxando alguma conversa mais cumprida com a gente, sobretudo com a vizinha.

É, elas tinham essas conversas. Pois numa dessas, meu camarada, curioso, não me contive e fui bisbilhotar. Fui mesmo. E que se dane! Fechei minha janela com uma manta, me sentei num banquinho e espichei os ouvidos. Ouvi pouco, mas descobri que a mulher era viúva recente. Tinha perdido o marido numa chacina, na favela, eles recém-casados. No susto, ela abortou seu neném. Seria o primeiro do casal. Primeiro e último. Coisa lamentável, Tobias, lamentável… Amigo, mais um gole do Contini, por caridade. E vê se larga de miserê, homem. Pode encher o copo, e anote aí, que eu não sou homem de ficar com o nome sujo.

Como ia dizendo, meu véio, a mulher, natural do Norte, ficou aqui, desenganada. A tragédia fez com que ela caísse numa depressão das brutas, dependente de remédios pra loucos. Sabe aqueles da tarja-preta?

Escuta. Na hora tive pena da pobre-coitada. Pena dela, e vergonha daqueles meus pensamentos. Mas confesso, confesso que aquele passo agourento no corredor, aquele passo triste, tarde da noite, ah… aquilo ainda me dava uns calafrios, uns desentendimentos. Dava, homem. Afinal, uma pessoa naquela situação… com os parafusos fora do lugar… Qualquer um que estivesse na minha pele temeria aquele maldito passo arrastado… Você mesmo, Seu Tobias. Não me olhe com essa cara.

Bom, fiquei com isto. Então dei pra ter sonhos, sentir agonias. Tô lhe falando, meu amigo, tô lhe falando. A coisa me descompassava, mesmo. Eu, nessa idade…

Amigo, mais um gole do Contini, por misericórdia. Sem economias. E bote tudo na ponta do lápis. Isso, isso…

Onde estava. Ah, sim.

O fato, meu amigo, o fato é que a gente nunca que se falava. Tobias, juro que éramos dois estranhos naquele quintal. Pois numa feita cheguei ao desespero. A Dona Maria resolveu passar temporada em sua chácara, lá pros interiores. Daí ficamos só a vizinha e eu.  Aquilo me doeu no estômago. Tive até uns desacertos. Palavra, Seu Tobias. E meu sono foi se perturbando, fui passando uns clarões, tanto mais quando eu não via a sombra torta da vizinha pela janela, passando de um lado pro outro. Minha cisma é que cedo ou tarde aquela maluca ia surgir na minha porta e me passaria na faca cega.

Escuta. Outra vez, quando já contava pra lá de meia-noite, eu ouvi, como de costume, os passos lentos da vizinha, vindo pelo corredor. Normal, tudo normal, Tobias. Ela sempre ia até o portão, demorava uns dez minutos e voltava para o seu quartinho, no silêncio. E fazia isso ritualmente, sempre àquelas horas, no lusco-fusco da madrugada, sabe-se lá com que finalidade. Palavra que a mulher era estranha, Tobias. Palavra.

Meu chapa, por favor, bote o último golinho do Contini, bote. O último, juro. Amanhã te pago toda essa porcaria, prometo. Não sou de passar gente honesta e querida pra trás. E você é um querido, Seu Tobias, um baita dum querido.

Ouça, ouça que já tô acabando. Ela veio andando, só que dessa vez, veja, dessa vez a vizinha parou na minha porta. E bateu. Acredita? Meu coração rebentou junto. Por impulso, me encolhi e fingi que dormia. Não faça essa carinha de esperto, meu amigo. No meu lugar, sei que o senhorito faria o mesmo. E quer saber? Vai te catar! Me chame de covarde se quiser. Não ligo. Essa coisa toda estava me fazendo feridas na garganta, meu parceiro, te juro. Se não te conto, ia me abrir um câncer. Já disse que é assim que surge o câncer? Pois é. Tinha que contar pra alguém, e sei que você é gente-fina. Bem… onde estava? Sim… Só mais um dedo do Contini, vai. Um dedinho. Não seja sovina, Tobias. Capricha na dose, pra esquentar. Como tá frio. Isso, isso, homem de Deus.

Pois veja, a mulher estava lá, batendo. Resolvi ficar na minha, esperando que desistisse. Algo me dizia que ela estava com um facão enferrujado pra cravar no meu bucho e me rasgar feito porco. Era esse o meu temor desde sempre, “um dia ela aparece e não terei nem tempo de correr”. Cheguei mesmo a ter pesadelos com isso, Tobias, acordava suado, com a boca seca. Te digo com franqueza, sem tirar nem pôr.

Ela bateu mais uma vez, mais uma e mais outra. E você tinha que ver, ela não batia com jeito de quem estivesse nervosa ou em desespero. Batia de leve, respeitosamente, como uma vizinha qualquer. Imaginei, “bate assim só para ganhar minha confiança”. Meu querido, te imploro, bote só mais um tico da vermelhinha aqui, vai. Só um tico. Dessa vez é só um pinguinho. Não seja pão-duro, por amor de Deus. Vou pagar, já disse.

Opa, opa! Isso é que é amigo! Você é um amigão, Tobias. Um querido!

Bom, deixa eu terminar. Você não imagina o final, meu amigo. Não imagina.

Eu não tinha como simular ausência. Minha televisão estava ligada, o clarão em cores alternadas e piscantes. No máximo, dava para fingir sono pesado. Porém, meu amigo, meu único amigo… Seu Tobias… já te disse que te considero meu maior amigo? Entretanto… O que dizia mesmo? Ah, sim. As batidas. As batidas continuaram e eu me apavorei, admito. Nem parecia mais um homem. Eu. Ex-mestre de obras Macedo, ex-pai de família, ex-filho. Ridículo, não? Um vexame, um completo vexame, meu amigo.

Do nada tive um lampejo de hombridade e fiz menção de responder. A coragem esteve na ponta da língua. Palavra. Mas de novo me reteve a imagem dos olhos de peixe-morto da vizinha e do facão cego. Esperaria mais uma chamada, só uma, a última, aí, bem, aí, “seja o que tiver de ser”.

Meu velho Tobias, não houve mais batidas. Nenhuma. Ouvi foi seu chinelo se arrastando daquele modo assombroso e vi seu vulto encurvado cruzando o limiar da janela.

Meu amigo, naquele mesmo dia ela se matou. E fui eu mesmo quem descobriu o defunto. Na verdade, foi a boa Maria. Mas fui eu quem a avisou do cheiro azedo saindo do quartinho, cheiro tão ruim que até corvo já andava rondando o quintal. Quando Dona Maria mais os bombeiros arrombaram o quartinho, já corriam seis dias desde a batida na porta. Dona Maria encontrou a desgraçada estirada no chão, toda cinza, coberta de mosquitinhos, com um pote vazio de ansiolíticos ao seu lado. Havia na sua cama um bilhete de despedida, datado do dia da batida na porta. Não quis ver o bilhete.

O velho Macedo desatou a chorar com a cara enfiada na boina. No jukebox, estalava mais uma canção de amor. Tobias desligou o aparelho. O bebum, súbito, caiu dormido, como sempre fazia. Tobias, então, conforme o costume, o arrastou cuidadosamente para fora e o acomodou sob o toldo do boteco. Deixou o homem ali, aos cuidados da lua branca, e de um cão, e baixou a porta com o peculiar rangido metálico.

 
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Detalhes do autor

Fábio Gonçalves

Fábio Gonçalves nasceu em 1990. Professor de História e Redação. Jornalista e articulista do jornal Brasil Sem Medo.  Autor do romance Um Milagre em Paraisópolis e do livro de contos O Retrato Doente. Mora em Diadema.

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